Por Dora Incontri (*)

Duas cenas me impressionaram. A primeira foi
a presença da polícia numa escola infantil, chamada por uma professora em
Piracicaba, para uma criança de 3 anos, porque ela estava mordendo e chutando!
E a outra, a repressão violenta da polícia em cima dos alunos da USP. O pior é
que no caso de Piracicaba, a diretora da escola não disse nada, a polícia foi
até a escola e a criança foi levada à delegacia. E o pior é que no caso da USP,
centenas de pessoas no Facebook (inclusive muitas cristãs, espiritualistas e
espíritas!!) gostaram, apoiaram e fizeram publicidade do método de “bater nos
baderneiros, nos maconheiros” ou coisa que o valha!
Outra notícia grave que está percorrendo a
internet (e com o apoio de muitos) é a proposta de mudança do ECA (Estatuto da
criança e do adolescente) para criminalizar as agressões e “desrespeito” dos
alunos aos professores!
Esses sintomas revelam algo muito grave em
nossa sociedade: acreditamos muito mais na polícia, na repressão, na punição –
leia-se vingança social – do que na educação. Colocar a polícia em cena em
locais onde se pretende fazer educação é declarar a falência da própria
educação! Tratar crianças e estudantes como bandidos (por mais que estejam
agredindo e se revoltando – então temos que descobrir as causas dessa revolta e
tratá-las – a educação é justamente para isso!) é mostrar que não acreditamos
na força do diálogo, da construção de personalidades autônomas e pensantes, que
não damos o mínimo valor ao que uma boa educação – quando cultivada – consegue
fazer: trazer à tona o divino que existe em todas as criaturas, para que elas
sejam melhores…
A atribuição de responsabilidade criminal a
crianças e adolescentes já acontece, embora não se assuma isso, porque
comparecem em condição humilhante diante de juízes, quando deveriam ser
orientadas em terapias, assistidas socialmente e trabalhadas afetivamente, para
se recuperarem dos traumas que passaram nas ruas, com os abusos e violências
recebidas, com o abandono dos familiares. Mas a sociedade não está satisfeita:
quer a diminuição da maioridade, quer criminalizar agressões dentro da escola!
E o que a sociedade faz pelas crianças? Que estímulos positivos dá? Que
educação oferece em escolas públicas que mais parecem presídios que escolas?
Aliás, deveria ser o contrário: os presídios deveriam mais parecer escolas e
não escolas parecerem presídios. Isso revela o quão pouco fazemos pela
educação. Quando pensarmos em todos os níveis, mais em educação que punição,
mais em investimento no que é positivo do que em repressão ao que é negativo,
mais em oferecer alternativas de vida, de aprendizagem, de esperança e sonho,
do que impor limites, regras, amarras… então estaremos de fato contribuindo
para a melhoria da escola, das crianças, dos jovens, das universidades e da
sociedade em geral.
Façam-se das escolas lugares com boa música,
com flores, com natureza, com professores estimulados, bem renumerados,
capacitados, amorosos… Façam-se escolas com teatro, poesia, com cores, com
escolha livre de projetos interessantes e não com aulas mortas, em classes de
40 pessoas, diante de uma lousa… Façam-se escolas onde de fato se aprenda, com
computadores, com midiatecas bem equipadas, com laboratórios, material didático
farto e de ponta… Façam-se escolas com corais, orquestras, grupos de dança… E
não haverá mais problemas de disciplina, evasão, agressão… Há diversas
experiências no Brasil e no mundo que demonstram isso!
Façam-se universidades onde se recupere a
espiritualidade e onde se discutam questões existenciais (vi várias pessoas
dizendo que os maconheiros deveriam ser presos – mas o que se oferece em termos
de sentido existencial, em estímulo de vida, a uma juventude que só vê
nihilismo nas faculdades e consumismo na sociedade?)… Façam-se universidades,
onde se aprenda a dialogar e a pensar, onde se pense mais socialmente… Façam-se
universidades que deem perspectivas de trabalho, de transformação da sociedade
e não se faça tudo apenas para encaixar o indivíduo robotizado num mercado
desumano… E os jovens terão outros ideais do que esses que apoiam a polícia
dentro da universidade e do que esses que se entopem de bebida e drogas!
Quando tivermos essas escolas e essas
universidades, dispensaremos polícias, repressões e punições – porque quando
bem estimulado, quando despertado para o melhor que traz dentro de si, pela
arte, pela espiritualidade saudável (não pela religião fanática), pelo amor
recebido de verdadeiros mestres, o ser humano mostra a sua divindade e
desenvolve suas potencialidades de maneira harmoniosa e útil, para si e para o
mundo!
Entendamos que a violência, a punição, a
repressão, humilham, causam mais revolta, pioram o ser humano, que se já está
em crise, se torna um bicho acuado. Ao passo que o diálogo, o respeito, a
confiança, a construção paciente e humana de um processo pedagógico restaura a
integridade da pessoa e a torna melhor.
Lembro aqui da experiência maravilhosa de
Padre Flanagan nos Estados Unidos, nas décadas de 30 e 40, com a construção da
Cidade dos Meninos (Boys’ Town), até hoje existente (hoje Girls’ and Boys’
Town). Nos primeiros 10 anos, passaram por lá 4 mil meninos, considerados
delinquentes, alguns já com crimes cometidos, e qual foi o índice de
recuperação dessas crianças? 100%. O método usado: amor, liberdade, confiança.
Os meninos geriam a cidade, elegendo prefeitos em assembleias; havia oficinas,
música, religiosidade plural (estimulava-se que cada um praticasse a religião
própria). Não havia muros, as portas ficavam abertas, não havia guardas,
policiais, celas, punições… Havia a possibilidade de construir uma nova vida,
sob a liderança de um padre amoroso, que dizia: “Não há meninos maus! Há má
educação, maus estímulos, más companhias!”.
O problema fundamental dos repressores é que
eles não acreditam na bondade humana. São amargos, pessimistas, não creem que o
amor possa despertar o anjo que mora em nós, mas acham que a violência tem que
reprimir o bicho que somos. No entanto, se essas pessoas, que assim pensam (e
são muitas) se autodenominam cristãs, deveriam lembrar-se de algumas palavras
de Jesus:
“O reino de Deus está dentro de vós!” e “Vós sois deuses” – isso significa que
todos temos uma bondade essencial que precisa ser tocada e despertada.
“Perdoai setenta vezes sete!” e “Misericórdia quero, não sacrifício!” –
quanto mais isso se aplica com uma criança, um adolescente, que estão
começando, que precisam de afeto, orientação e compreensão!
“Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles
é o Reino dos Céus” – Jesus disse que era preciso nos fazermos como crianças
para entrarmos no Reino, isso significa uma primazia da inocência, da pureza e
da bondade natural da criança. Se ela agride, se está desajustada, ela está
reagindo a uma situação negativa, está com um problema que tem que ser
resolvido amorosamente. Ela não é má, não está endiabrada (como querem as
professoras evangélicas, que andam fazendo exorcismo dentro das escolas
públicas – isso será objeto de outro artigo), não é uma peste!!! Ela precisa de
amor e ajuda.
“Amai os vossos inimigos e fazei bem aos que
vos perseguem”. O que isso significa? Essa é a essência da mensagem de Jesus:
combater o mal com o bem e não nos tornando piores que os agressores. Acender
uma luz para dissolver as trevas e não nos tornando inquisidores dos que
achamos que estão errados (e às vezes nem errados estão!).
Fica então essa mensagem, que é de Jesus, de
Gandhi, de Buda, de Confúcio, de Francisco de Assis e dos grandes educadores,
como Comenius, Pestalozzi, Eurípedes… O dia em que acreditarmos na força do
amor, da bondade, do diálogo e da compaixão, deporemos nossas armas internas e
vamos arar os corações com instrumentos de paz!
¹ publicado originalmente em 16.11.2011 - http://doraincontri.com/2011/11/
(*) jornalista, educadora e escritora. Suas áreas
de atuação são Educação, Filosofia, Espiritualidade, Artes, Espiritismo. Tem
mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia da Educação pela USP.
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