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CARTAS SOBRE A NÃO VIOLÊNCIA (3)




Anunciamos na semana passada que iríamos refletir sobre a questão: Jesus era mesmo a favor da não violência?

Tolstoi e Gandhi, ao criarem o movimento da resistência passiva, se inspiraram diretamente no Sermão da Montanha. Será que estavam equivocados, ao interpretar Jesus como um pacifista?

No mundo antigo, entre judeus, romanos e gregos, que se saiba, nunca houve uma proposição ética de se perdoar e amar os inimigos, de se dar a outra face, de se oferecer em martírio, ao invés de se pegar em armas. Todo o mundo antigo se pautava, no Oriente e no Ocidente (talvez com a exceção de alguns discípulos de Buda) na ideia de que a honra deveria ser lavada em sangue. De que perdoar o inimigo era fraqueza e covardia. Aliás, o perdão jamais foi uma virtude sequer mencionada pelos antigos. Platão, em sua República ideal, coloca a classe dos guerreiros como guardiões da cidade. As virtudes, proclamadas por Platão e seu discípulo Aristóteles, eram a justiça, a temperança, a coragem e a prudência. Nada de fraternidade, amor, perdão… tudo isso é cristão – aliás, contra essas virtudes cristãs, Nietzsche vai bater seu martelo, considerando-as de maneira muito grega, como próprias de escravos.

Mas foi justamente essa uma das principais revoluções éticas de Jesus: colocar o amor como antídoto do ódio, o perdão como meio de resolução de conflito.

Outra revolução foi a ideia de igualdade. Hoje, quando defendemos uma Declaração Universal dos Direitos humanos, baseados na ideia de que todos e todas têm iguais direitos, apesar da laicidade desse documento, estamos assentados numa tradição cristã. Embora as Igrejas cristãs nunca tenham cumprido essa ideia de Jesus, incorporando em suas instituições tanto a violência, quanto o patriarcado, quanto a profunda divisão de classes… Jesus foi aquele que inaugurou a ideia de igualdade, que partilhou com as mulheres o pão e o ensino, enquanto os gregos, tão civilizados e criadores de tantas conquistas culturais, trancavam suas esposas e filhas nos gineceus e mantinham escravos. Os romanos, com seu Direito que até hoje deixou marcas no Ocidente, tinham em sua lei o pátrio poder de, inclusive, matarem suas mulheres e seus filhos. Jesus foi aquele que se dirigiu a judeus e a romanos, para escândalo dos judeus. Jesus foi aquele que falou com as crianças, para escândalo dos próprios discípulos. Jesus foi aquele que inibiu que se apedrejasse a pecadora.

Espanta-me que os estudiosos contemporâneos das escrituras, embora tenham muito progredido em apontar como se constituíram os Evangelhos, como se formaram os dogmas, como se amalgamaram as mensagens dos primeiros apóstolos com as tradições pagãs e com as estruturas políticas do Império Romano, não reconhecem como deveriam a originalidade ética de Jesus. Essa foi uma contribuição importante de Kardec com o Evangelho Segundo o Espiritismo, onde ele focou apenas os valores éticos propostos por Jesus. Hoje, quanto mais se despe Jesus dos seus aparatos mitológicos e se quer apreender o Jesus histórico, mais se pretende descrevê-lo apenas como um judeu milenarista de sua época, em luta contra o Império Romano ou esperando o advento próximo do Reino. Exemplo dessa interpretação milenarista está nas obras, em vários aspectos muito pertinentes, de Bart Ehrman.

Por que então teria sobrevivido Jesus a seu tempo, à sua região? Se fosse apenas um profeta zelote, interessado em derrubar o Império romano, ou um milenarista à moda dos essênios, à espera imediata do reino? De onde teria surgido essa ética tão insólita no mundo antigo: uma ética de amor e não-violência, de perdão e misericórdia?

Historicamente não se encaixa um homem judeu naquele contexto, ensinando algo que nunca foi dito… Para os cristãos tradicionais, tratava-se de uma pessoa divina; numa explicação hindu, poderia tratar-se de um avatar; para os espíritas, Jesus é um espírito elevado, que já atingiu um nível de perfeição acima dos seres humanos. Ainda um ateu pacifista pode muito bem aceitar a ideia de que se tratava de uma pessoa fora da curva, fazendo história, de maneira singular e inédita. O argumento sinuoso de que o Jesus histórico, revolucionário armado, revoltoso contra Roma, tenha sido domesticado historicamente, parece sem referências concretas, mas apenas especulações de quem quer achar o apoio do Cristo para a violência.

Pode-se perguntar: ele não expulsou os vendilhões do templo? Sim, rebelou-se contra a exploração da fé. Foi duro contra os fariseus e isso nos mostra como a não violência não é assentimento da violência, da exploração e da opressão.

Mas a mensagem de Jesus foi uma mensagem universalista, dirigida ao ser humano e não apenas a uma parcela, classe ou gênero… Ele pretendia a salvação, a redenção ou, interpretado de forma diferente, a iluminação e evolução de todos e todas. Do pobre e do rico, do homem e da mulher, do romano e do judeu, do senhor e do escravo.

Assim entendeu Gandhi, que ao lutar pela liberdade da Índia, não exercia o ódio contra os ingleses (e ele tinha motivos de sobra para um ódio fervoroso), mas queria tocá-los e lhes dar uma lição de justiça e fraternidade. Ao mesmo tempo, entendia que seus compatriotas, embora vítimas da dominação inglesa, também exerciam eles próprios a opressão das castas, sobretudo em relação aos intocáveis, aqueles que estavam fora de todas as castas e assumiam os trabalhos sujos da sociedade. O processo de Gandhi foi o de se unir aos intocáveis, fazendo os serviços considerados impuros, que eles eram obrigados a assumir. Não se considerava com moral para lutar contra o colonialismo inglês, se ele próprio participasse da opressão interna de seu país. Nesse duplo movimento, Gandhi mostrava que a violência está entre opressores e oprimidos e que precisamos despertar uma consciência de irmandade em todos os membros da sociedade humana.

A prática da não violência está comprometida a acabar com qualquer relação de opressão e violência e não usar novas modalidades de coerção, para supostamente acabar com a violência estrutural da sociedade.

Por isso, Jesus dizia que o reino de Deus está dentro de nós – dos judeus e dos pagãos; dos homens e das mulheres; dos ricos e dos pobres; dos ladrões e das prostitutas; dos poderosos e das crianças… é preciso acordar esse reino nos corações e não eliminar os que andam sonolentos, inconscientes, gritando e ferindo, enlouquecidos. Isso não significa que não devamos nos opor com todo o engajamento possível às violências, às injustiças, ao extermínio mesmo de seres humanos, pertencentes a esse ou aquele grupo. Derrubemos as mesas do templo, com o mesmo chicote de Jesus. Mas ele não matou os mercadores.

Entretanto, esse caminho da não violência exige mudanças profundas na consciência e na ação de seus praticantes. É o que veremos na próxima carta.

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