quinta-feira, 3 de abril de 2025

A CARIDADE NA JUSTIÇA

 


  Por Doris Gandres

Santo Agostinho afirmava que “onde não há caridade não pode haver justiça”. Que grande e profunda afirmação, digna da nossa mais séria reflexão, sobretudo nos tempos atuais em que enxameiam os comportamentos severamente equivocados e negativos de um lado, e de outro, infestam as atitudes pretensamente capacitadas para julgar, determinar e sentenciar as criaturas envolvidas nesses eventos nefastos, provocadores de tanto sofrimento e assombro na grande maioria sujeita ao resultado desses procedimentos.

Atualmente se constata a cada dia mais um caso, ou vários, de desvio moral nas mais diversas atividades, nas instituições que deveriam primar por seus valores ético-morais, e entre pessoas que, há algum tempo atrás, julgávamos merecedoras do nosso respeito e, principalmente, confiança. As denúncias fazem aflorar os mais vergonhosos e tristes feitos, imorais e amorais, muitos deles ocorrendo desde longa data, em praticamente todas as áreas da atividade humana.

Contudo, é sempre necessário termos em mente que nada acontece sem um propósito; sem que, de alguma forma, todos nós tenhamos, ainda que por omissão, contribuído para isso. N’O Livro dos Espíritos, dentro do contexto da Lei de Progresso, na questão 783, os Espíritos responderam a Kardec que: “Há o progresso regular e lento que resulta da força das coisas; mas, quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca de tempos em tempos um abalo físico ou moral que o transforma. ” E, ao que tudo indica, chegamos a esse ponto.

Em Obras Póstumas, há um estudo bastante aprofundado sobre a questão das expiações coletivas, as quais, no entanto, não excluem as nossas expiações individuais; que somos responsáveis, enquanto encarnados, por três situações: como indivíduo propriamente dito, ou seja, quanto às opções e escolhas pessoais; como membro de uma família e como cidadão, participante, seja como for, de um grupo, de uma coletividade, menor ou maior.

É ao longo das ações nessas três condições que construímos a nossa inserção nesta ou naquela situação futura. Lamentavelmente sabemos que, de um modo geral, não vimos realizando boas construções no decorrer do tempo...

O progresso é lei natural, nada o pode impedir; entretanto, muitas vezes podemos atrapalhar o seu bom andamento e, assim, nos colocarmos à mercê da “força das coisas” como bem designava Allan Kardec tais situações. Todavia, essa “força das coisas” é regida por uma lei maior, a Lei de Justiça, Amor e Caridade. Porque ai de nós se assim não fosse...

Penso que Santo Agostinho, ao fazer essa afirmativa da necessidade de se aplicar a caridade no julgamento, já conhecia essa lei divina da justiça com amor e caridade. Espírito do seu gabarito, que nos traz recomendações tão valiosas na q. 919 d’O Livro dos Espíritos, quanto ao método para nos conhecermos e melhor avaliar nossas atitudes cotidianas, certamente já possuía grandeza de alma suficiente para compreender o que afirmava.

São Luiz, n’O Livro dos Médiuns, Capítulo XXIV, esclarece que “para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é necessário antes saber julgar-se a si mesmo”. Por questões de contexto dentro do livro, São Luiz faz a distinção entre desencarnados e encarnados; todavia, tanto uns como outros, somos Espíritos, simplesmente em diferentes dimensões de vida, mas sujeitos às mesmas leis naturais.

Naturalmente compreendemos que isto não significa conivência e cumplicidade com os erros e desacertos cometidos de forma geral. O próprio São Luiz nos faz recomendações preciosas sobre isso no Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, itens 19, 20 e 21. É necessário, porém, sempre muito cuidado e inclusive respeito para com aquele sendo julgado. Quando se trata de uma intenção útil, a benefício do progresso de todos, ele ainda afirma que “é um dever que a caridade manda cumprir com todas as cautelas possíveis”.

Podemos inferir que, face às questões terrenas, a caridade na justiça significa observância criteriosa das leis, isenção de parcialidades e privilégios; extinção da impunidade, mas penalidades visando, sobretudo, o despertamento e a reeducação; casas de detenção que ofereçam condições adequadas ao refazimento do ser humano em resgate de suas faltas, assegurando, tanto quanto possível, sua reinserção na sociedade.


E não devemos, nós espíritas, esquecer a bandeira desfraldada pelo mestre lionês Allan Kardec, sob a qual todos os seres podem se abrigar: Fora da Caridade não há Salvação! Ainda n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XI, item 15, o Espírito Elizabeth de França nos incentiva a orar pelo criminoso de todo tipo porque “é vosso próximo, como o melhor dos homens. Sua alma, transviada e revoltada, foi criada como a vossa, para se aperfeiçoar. Ajudai-o, pois, a sair do lamaçal, e orai por ele!” .

 

OBS – Para quem ainda não viu, sugiro assistir o DVD Os Últimos Passos de um Homem – a história de uma freira que acompanha os últimos dias de um criminoso condenado à pena de morte nos USA.

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